O Imperador Carlos Magno e o Bandido

Carlos Magno (10)

Histórias, Contos e Lendas

 

O Imperador e o Bandido

 

Carlos Magno estava dormindo em seu palácio quando viu em sonho um anjo rodeado de uma auréola brilhante de luz sobrenatural. O anjo pôs-se diante do Imperador e o saudou com estas palavras:

— Salve Carlos! Levanta‑te, grande Imperador e escutai a voz de Deus que fala por mim. Vista‑se e apanhe suas armas, é necessário que saias esta noite sem que ninguém te acompanhe para fazer um roubo! Se queres viver, obedeça!

O Imperador acordou, estranhando muito o que havia visto no sonho. Não se deixando perturbar, voltou a adormecer.

Outra vez viu o anjo que ordenava:

— Levanta‑te, ó rei, prepara‑te para cumprir as ordens que lhe dei. É para o teu bem e salvação do Império. Deus se serve de mim para dar‑lhe a conhecer a sua vontade. Levanta-te e rouba!

Carlos Magno acordou e ficou muito pensativo, mas logo adormeceu novamente.

O anjo do Senhor o despertou com redobrada insistência, e exigiu com energia para que se levantasse e saísse a roubar.

— Carlos, eu te ordeno: levanta-te e rouba!

Levantando‑se, decidiu obedecer e sair do palácio como o anjo lhe ordenara. Em vão se esforçou para descobrir o sentido das palavras do anjo que mandava um Imperador honrado fazer uma ação criminosa.

— Para que hei de roubar? Eu, o homem mais poderoso, o dono absoluto das terras que se estendem desde o Danúbio até os extremos da Espanha! Por que hei de passar por ladrão, como o mais miserável dos meus súditos? Que fiz eu?! Desgraçado de mim! Que fiz para merecer tal castigo da justiça divina?

Lembrou-se de que o Anjo falava de forma categórica e, por fim, decidiu obedecer à ordem recebida.

— Bem, roubarei, serei um ladrão! Serei enforcado, se for preciso, pois Deus assim o quer!

E o Imperador da barba florida levantou-se, vestiu‑se, tomou sua armadura e saiu do palácio. Passou pelo dormitório e refeitório dos servidores e escudeiros, que não o perceberam pois estavam tomados de maneira sobrenatural de um pesado sono. Foi à estrebaria, selou um bom cavalo e saiu do castelo.

Carlos dirigiu-se à floresta e ia dizendo para si:

— Sendo que Deus manifestou sua vontade e quer que eu faça uma coisa que me causa horror desde minha infância, eu farei, mas, não sei como fazê‑lo. Vou, portanto, procurar o famoso ladrão Elbegasto, que eu tinha perseguido sem tréguas, pois me será útil neste momento.

Carlos Magno lembrou-se de como havia desterrado o nobre Elbegasto, por uma pequena falta. Desde  então, este cavaleiro tornou-se um ladrão.

Sua alma encheu-se de compaixão para com a desgraçada vítima de sua ira e admirou com humildade e justiça os desígnios de Deus, pois talvez o motivo de estar passando agora por esta aflição tenha sido esta atitude para com aquele cavaleiro.

Na pálida luz da lua, o Imperador viu aproximar-se um cavaleiro solitário. Este parecia igualmente ter visto Carlos Magno e avançou, de maneira que prontamente se encontraram.

O cavaleiro estava com uma armadura toda negra, que o cobria da cabeça aos pés e montava também num cavalo negro. Chegou à frente de Carlos Magno, examinou-o, com curiosa atenção, pois queria saber quem era este que cavalgava solitário pela floresta.

 

A cor negra do silencioso cavaleiro não parecia a Carlos Magno bom pressentimento, tremia, pensando que poderia ser o próprio demônio que tinha vindo ao seu encontro para perdê‑lo. Por fim, o misterioso cavaleiro perguntou:

— Quem sois vós, coberto por vossa branca armadura, que andas à noite, pelos caminhos sombrios da selva? Sois talvez um servidor do rei que buscais a pista de Elbegasto, que vive neste bosque? Se cavalgais com esse objetivo, desistas, porque fracassareis. Mais rápido que o vento, mais astuto que os conselheiros do rei , esse homem que aqui está, conhece esconderijos e lugares selvagens, melhor que o veado e a raposa.

Carlos Magno respondeu:

— Meu caminho não é o vosso. Somente o Imperador tem direito de pedir conta de minhas ações. E se o que disse não é de vosso gosto, estou disposto a sustentar minhas palavras como convém a um cavaleiro.

E dizendo isto, tirou sua espada da bainha e se preparou para o combate. No mesmo instante o cavaleiro negro fez reluzir o aço de sua espada. O sinistro cavaleiro descarregou tremendo golpe que acertaria diretamente no elmo de Carlos Magno, se este não o houvesse amparado com sua espada. Em seguida Carlos Magno desferiu tal golpe que a espada de seu adversário foi arrancada de sua mão. Carlos Magno, como honrado cavaleiro disse:

— Não quero sua vida. Ficarás livre, se me disser quem sois e por que motivo andais por estes lugares.

— Eu sou Elbegasto! Desde o dia em que perdi minha fortuna e Carlos Magno me degradou, tenho procurado sobreviver por meio do roubo e do banditismo. Até aqui ninguém me venceu nesta humilhante carreira… só vós o fizeste. E como me trataste com generosidade e nobreza, dizei‑me o que posso fazer para ajudá‑lo, a fim de que possa testemunhar o meu agradecimento.

O Imperador contestou:

— Se vós sois o famoso bandido Elbegasto, cuja cabeça está a prêmio, podeis testemunhar vosso reconhecimento, se me ajudares a cometer um roubo! Empreendi‑me nesta incursão noturna para roubar o Imperador, vossa ajuda pode me ser útil para esse objetivo. Venha pois comigo e realizaremos um roubo juntos.

O bandido, sobressaltado, respondeu:

— Cavaleiro! Jamais roubei a mínima coisa do rei! Se me tirou a fortuna e me desterrou, o fez por mentiras dos seus maus conselheiros e longe de mim querer causar o menor dano a meu senhor. Eu roubo somente aqueles que fizeram sua riqueza por meio do crime, da cobiça ou do engano. Mas, se é um roubo o que quereis fazer, ide às propriedades do Conde Egerico de Egermonde. Este conde  tem arruinado homens honrados e não vacilaria em roubar o próprio Imperador de seu trono e tirar‑lhe a vida, se tivesse meios para isto.

Carlos Magno se alegrou interiormente, descobrindo um profundo sentimento de fidelidade e lhe disse:

— Tu me acompanharás ao castelo de Egerico!

E juntos se dirigiram ao castelo do conde. Quando lá chegaram, Elbegasto descobriu um meio de entrar no palácio, fazendo uma escalada no muro.

Entraram no quarto do conde, pois, Elbegasto sabia abrir facilmente fechaduras sem fazer ruído; Carlos Magno o acompanhava.

O conde Egerico, que tinha sono leve, acordou assustado e em altas vozes chamou um criado. Este, tendo entrado no quarto de seu amo, disse:

— Senhor Conde, o senhor me chamou?

— Sim! Ouvi barulhos estranhos! Deve haver ladrões no castelo! Você ouviu alguma coisa, ou notou algo de estranho?

— Não, senhor conde…

— Imbecil! Devia estar mais atento! Dê-me logo está tocha que tendes à mão!

Levantando-se rapidamente, tomou a tocha da mão de seu criado e juntos foram percorrer os corredores e quartos.

 

Carlos Magno e Elbegasto, tiveram tempo para se esconderem atrás de uma cortina do vasto quarto do conde, onde ele não podia imaginar que alguém ali estivesse.

Egerico voltou para seu quarto e sentou-se em sua cama. Estava visivelmente preocupado. Seu criado, disse-lhe, então:

— Senhor, me desculpe, mas é certo que ninguém entrou no palácio. Acho que alguma preocupação está lhe afligindo… e isto o impede de repousar.

— Meu fiel criado, de fato tendes razão! Uma preocupação me aflige. Mas, já que a execução de meus planos se realizará amanhã, vou lhe dizer, para que fique mais tranqüilo: fiz um pacto com doze cavaleiros de que amanhã assassinaremos o Imperador quando ele nos receber na audiência que lhe pedi. Ele nos proibiu de cobrar tributos aos viajantes do caminho real e sempre faz algo para nos prejudicar! Por isso selamos um pacto e escrevemos nossos nomes num documento que está guardado dentro daquela caixa que vedes em cima da mesa. Ninguém sabe deste propósito e te peço que guardes silêncio, pois senão, nem tua vida estará segura. Agora, ides, e ficai vigiando durante toda a noite a porte de meu quarto, para que eu possa repousar sossegadamente…

O Imperador não perdeu nenhuma palavra deste diálogo. Quando o criado saiu do quarto e o conde voltou a adormecer, os dois saíram silenciosamente de seu esconderijo e Carlos magno apontou para a caixa em cima da mesa.

Elbegasto, que tudo entendera, aproximou-se pé-ante-pé da mesa que ficava no extremo oposto de onde eles estavam.

O quarto estava tenuemente iluminado pelo luar. Elbegasto respirava muito pausadamente, e todos os seus gestos eram suaves como a coruja que voa à noite. Cuidadosamente abriu a caixa e viu três pergaminhos… tomou um e desenrolou-o… era exatamente o que continha os nomes dos 13 conspiradores.

Voltando até onde estava Carlos Magno saíram pelo mesmo modo pelo qual haviam entrado. Momentos depois, escondidos num bosque Carlos Magno disse:

— Ficai com este documento e assim que o sol nascer apresentai-vos no palácio do Imperador e entregai-lhe este pergaminho e contai tudo o que ouvimos. Tendes o perigo de serdes preso, mas creio que por este serviço prestado o Imperador lhe perdoará.

Até aquele momento, Elbegasto não reconhecera que o cavaleiro com quem falava era o próprio Imperador Carlos Magno, pois este tinha o rosto coberto. E assim, os dois cavaleiros separaram-se sumindo no meio da escuridão.

No dia seguinte, muito cedo, apresentou‑se o bandido Elbegasto no palácio, dizendo aos guardas que tinha de dar ao Imperador um importante aviso.

Carlos Magno estava reunido com todo o conselho dos nobres, e Elbegasto relatou diante do Imperador e de todos os outros os acontecimentos da noite passada.

Então, Carlos Magno levantou-se de seu trono e disse:

— Senhores barões, justamente esta noite tive um sonho. Vi que o conde Egerico viria ao palácio com doze outros cavaleiro, com a intenção de assassinar‑me. Sua ira contra mim tem sua causa na proibição que fiz de não obrigar os viajantes do caminho real a que paguem impostos a esses cavaleiros que têm a alma de ladrão. Se Elbegasto não tivesse vindo aqui, eu não daria importância para esse sonho, mas vemos que Deus quis utilizar-se dele para salvar o império e a mim. Lembrai-vos que justamente hoje, o conde Egerico pediu que o atendêssemos numa audiência. Cuidai, pois, de que tenha suficiente número de soldados protegendo as portas do palácio.

Próximo ao meio-dia, Egerico chegou com seus homens. Além dos doze conspiradores,  o conde havia trazido mais oito soldados.

 

Ao entrarem no Salão Real não encontraram Carlos Magno acompanhado apenas por dois ou três conselheiros, mas rodeado pelos 12 Pares de França: Roland e Olivier ocupavam a direita do Imperador; o Bispo Turpin, a esquerda, e ao lado deste, Elbegasto. Os outros Pares estavam dispostos em meio círculo, atrás de Carlos Magno.

O conde Egerico por um momento sentiu um calafrio, mas logo acalmou-se.

— Que grande oportunidade! — pensou Egerico — Junto com  o Imperador, darei fim a todos os seus Pares, pois eles serão mortos ou dominados de surpresa, pois nem imaginam o que vai acontecer…

Antes, porém, que Egerico desse início a seus maléficos planos, Roland, adiantou-se e com voz firme, disse:

— Conde Egerico, em nome do Imperador, estás preso por crime de alta traição!

Por um momento ficou paralisado, mas tomando fôlego contestou:

— O quê?! Isto é uma ofensa que eu não posso permitir! Peço que se retrate e peças desculpas!

Neste momento, Elbegasto, aproximando-se de Egerico, disse-lhe:

— Infiel vassalo! O tempo de tuas mentiras e conspirações acabou! Vede o documento com o teu nome e o de teus companheiros, no qual está escrito que planejam matar o Imperador!

— Elbegasto, seu ladrão!

Num gesto desesperado empurrou a Elbegasto e desembainhou sua espada, o mesmo fizeram os que o acompanhavam.

No entanto, os Pares de Carlos Magno já haviam se preparado e os conspiradores foram rapidamente dominados graças ao altíssimo valor, força e coragem desses intrépidos cavaleiros.

Tendo sido restabelecida a ordem, Carlos Magno chamou a Elbegasto e perdoou-o diante dos Pares de França, dizendo que novamente seria admitido na corte se renunciasse as suas atividades desleais e sobretudo se pedisse o perdão a Deus.

Elbegasto disse:

— Outra coisa não quero fazer Majestade! Desde já vos peço perdão e prometo emendar-me de todos os meus crimes.

E aproximando-se do Bispo Turpin pediu-lhe que o atendesse em confissão.

Deste modo, reconciliado com Deus e com o Imperador, tornou-se um exemplar e fiel cavaleiro.

Esta entrada foi publicada em Sem categoria. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

Deixe seu comentário